A primeira música sertaneja gravada no Brasil
18/01/2016 - 18h35 em Curiosidades

Se alguém perguntasse "qual a primeira música gravada no Brasil?", a resposta seria enfática: chama-se "Isto é bom", composta por Xisto Bahia, interpretada por Manuel Pedro dos Santos, o Bahiano, em 1902, pela Casa Edison, pioneira em gravações de discos para gramofones no Brasil. A música é o registro número 1 no catálogo, e por regra (normatização) é, historicamente, a primeira gravação. Bahiano também é o intérprete do primeiro Samba gravado no Brasil: "Pelo telefone", de "Donga e Mauro de Almeida", segundo os registros da Biblioteca Nacional.

     Mas, responder "qual é a primeira música sertaneja gravada no Brasil" não é tão fácil quanto parece. Antes, precisamos considerar a normatização e o convencionalismo que também estão presentes quando o assunto é música, como expressão artística e cultural. São os chamados "rótulos".

     As normas e convenções deveriam simplificar a compreensão da temática na discussão sobre um determinado assunto, mas na prática nem sempre é assim, o que causa controvérsia e gera polêmica. Parece ser este o caso, quando tentamos responder a essa pergunta.


Sertão


   A denominação "Sertanejo" sempre se referiu ao indivíduo que vive no Sertão, especificamente, uma das quatro sub-regiões do Nordeste do Brasil (Meio Norte, Sertão, Agreste e Zona da Mata), com clima semi-árido e ambiente hostil.
     A origem dessa expressão vem da época da colonização do Brasil, pelos portugueses que, ao encontrarem uma região com características típicas dos desertos, referiram-se à ela como um "desertão". Aos poucos, a denominação sofreu variações linguisticas regionais passando a ser usada a expressão "De Sertão" e , com o tempo, apenas "Sertão".

    Se levarmos em consideração somente esta explicação para "rotularmos" o que é música sertaneja, então, poderíamos afirmar com segurança que a primeira música sertaneja gravada é "O Luar do Sertão", de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambucano, composta no início dos anos 1910 e gravada, pela primeira vez no ano de 1914 por Eduardo Neves, pela gravadora Odeon.

    À partir de 1935 deixou-se de usar o artigo masculino e a música passou a ser nominada simplesmente "Luar do Sertão". Desde então, a toada sertaneja ganhou os mais variados arranjos, tornou-se uma música popular e uma das canções brasileiras mais regravadas em todos os tempos, por artistas célebres dos mais variados estilos como: Vicente Celestino, Luiz Gonzaga, Maria Bethânia, Chitãozinho & Xororó, Simone, Milton Nascimento, Pena Branca & Xavantinho, Rolando Boldrin, Roberta Miranda, Tonico e Tinoco, Cascatinha & Inhana, Zico e Zeca, entre outras dezenas de regravações, incluindo Ray Conniff, Zezé di Camargo & Luciano, até o padre cantor Fábio de Melo.

    Mas o assunto não acaba aqui.
    Aliás, isto é só o começo da história.

   O termo "sertanejo" ganhou outras conotações quando se trata de "estilo musical" e, por convencionalismo, começou a ser usado também para identificar "ritmos" musicais das regiões Centro-Oeste e Sudeste do Brasil e, mais tarde, assimilando ainda as culturas sulistas do Brasil e mais além, chegando à Argentina e Paraguai, quando foram incorporados tangos, boleros, xulas, chamamés, guarânias, xotes, e muitas outras variações rítmicas.


Música Caipira


     É hora de citarmos a música "Caipira", termo que identifica ritmos musicais típicos das áreas rurais das regiões que englobam Minas Gerais, Goiás, Matogrosso, Matogrosso do Sul, São Paulo e Paraná.

    Tipicamente o estilo tem em suas características mais marcantes a simplicidade de suas letras e linhas melódicas, geralmente interpretadas por duetos que usam recursos vocálicos muito peculiares, entre eles os "falsetes" em tons muito agudos.
    Geralmente com arranjos e instrumentações simples, duas violas caipiras ou uma viola e um violão *(...), em algumas regiões acompanhados de "sanfonas" (acordeões ou gaitas), instrumentos regionais de percussão comumente artesanais, "pios" (instrumentos de sopro feitos de madeira que imitam sons de pássaros), até o próprio corpo como instrumento musical nas palmas ritmadas e sapateados (como acontece no "Catira").

*(Em 1939, Raul Torres e Serrinha foram os primeiros a cantar música sertaneja acompanhados de viola caipira e violão. Também lançaram o primeiro programa de rádio dedicado à música sertaneja, no mesmo ano, junto com José Rielli, em "os Três Batutas" , pela Rádio Record AM 1.000 Khz.- São Paulo).


Música Sertaneja


     Foi na Semana de Arte Moderna de 1922 que o célebre escritor brasileiro Mário de Andrade, um dos líderes do movimento modernista no Brasil, junto com Oswald de Andrade, referiu-se à música "caipira" como "música sertaneja", que já era heroicamente defendida, desde os anos 1910, por Cornélio Pires que ganhava notoriedade cada vez maior em suas apresentações pelo interior do Brasil e, agora, chegava aos grandes centros urbanos, verdadeiros polos culturais que ditavam os padrões de comportamento, usos e costumes, de toda a sociedade brasileira, apesar de se concentrarem principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo.

    Cornélio Pires, natural de Tietê/SP, era jornalista, escritor, folclorista e "humorista caipira".

    Ganhando maior atenção dos grandes centros e com novo "rótulo" de "sertaneja", a música "caipira" de Cornélio Pires ganha força. Isso o impulsiona a procurar a Byintyon & Company, representante da gravadora Columbia no Brasil, com a intenção de gravar o primeiro disco "sertanejo", mas a ideia foi recusada pelos donos da empresa fonográfica que "mandaram dizer" a ele que "música caipira não vendia discos". Então, Cornélio Pires resolveu bancar do próprio bolso a "prensagem" de cinco mil cópias, em discos de 78 RPM (rotações por minuto), por um custo altíssimo. Quando ninguém acreditava ser possível, ele aparece na sede da gravadora com "dois sacos cheios de dinheiro" e cobre toda a despesa. Como exigência dele, seus discos deveriam ter selos vermelhos para serem diferenciados dos discos da gravadora que tinham selos azuis. Contrariando todas as expectativas, seu empreendimento vendeu todas as cinco mil cópias em apenas 20 dias. Em pouco tempo vendeu mais de 300 mil cópias, algo impensável para a época.
     Cornélio Pires pode ser considerado o primeiro produtor independente e precursor das "Turnês Musicais", pois, graças às muitas apresentações que fazia com sua "companhia de artistas", no chamado "Teatro Ambulante", conseguiu disseminar a música "caipira", agora chamada de "Sertaneja", por todos os cantos, dos grandes centros aos mais longínquos rincões do interior dos estados das regiões Sudeste e Centro-Oeste, principalmente.

     A primeira gravação chama-se "Jorginho do Sertão", de Cornélio Pires, interpretada pela dupla Mandi & Sorocabinha, no ano de 1929. Outra gravação desta música é atribuída à dupla Caçula e Mariano, no mesmo ano.


Ouça "Luar do Sertão" e "Jorginho do Sertão"


     Na programação da Rádio Rancho da Traíra, web rádio do Restaurante Rancho da Traíra, de Mogi das Cruzes/SP, é possível ouvir "Luar do Sertão", em várias versões e "Jorginho do Sertão", em versão regravada em 1975 pela dupla Serrinha e Zé do rancho.

     Quanto à pergunta: "Qual a primeira música sertaneja gravada no Brasil?", o leitor desse texto pode tirar suas conclusões e responder de acordo com sua própria convicção, independente das normas e convenções.





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